Quarta-Feira, 17 de Agosto de 2022

Andrea Paiva

Andrea Paiva é Pedagoga e Pós-Graduanda em Fundamentos de uma Educação para o Pensar pela PUC-SP. Apaixonada por questões filosóficas e estudos do Ser, Andrea Paiva é poetisa e autora de livros. Atualmente é pesquisadora na área da educação através do Grupo de Pesquisa e Produção do Conhecimento - Cátedra Joel Martins PUC-SP.

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Você já aprendeu a fechar portas?



Ah, o apego… penso que este seja o principal fator de nossas angústias. Seria o único? Se você é capaz de citar algum sofrimento que não gire em torno do apego, diga-me, pois eu não consegui tal proeza. Talvez por isso que refletir sobre ele seja tão importante.


Penso que sem o apego, a vida seria muito mais leve e prazerosa. Mas se isso é tão óbvio, o que torna sua prática tão complicada? Talvez a resposta esteja na síndrome do herói que acompanha a todos. Ou será que você é alheio a isso? Duvido muito! 

Conheço pessoas que vivem em situações extremas, realmente desgastantes, mas não mudam por pena do outro. Dizem:
— Coitado, não posso deixá-lo sozinho nessa!
— Ele precisa de mim!
— O que vai ser dele sem minha ajuda?!
— Eu preciso fazer isso porque não tem quem faça!


Será mesmo? Será que você é tão importante quanto pensa? E será que o outro é tão inútil que não consegue dar conta? É o outro que precisa de você ou será você que não consegue se desapegar da situação?


A síndrome do herói é semelhante a síndrome do coitadinho. É incrível a quantidade de pessoas que se colocam pra baixo. É tão absurdamente grande que a síndrome do coitadinho já deixou de ser síndrome, virou praga!


Oh minha gente, vocês ainda estão nisso?! Não percebem que mudando suas crenças, mudarão o mundo? O seu mundo?


Não existe nada que não tenha passado pela peneira das crenças. Mude-as, e pronto! É um processo? Sim. Mas se você não começar, ninguém fará por você.


Ouço sempre a mesma coisa: falar é fácil, mas na prática…


Quer dizer que você se acha tão incapaz ao ponto de acreditar que mudar a si próprio é algo impossível? Você deveria sentir vergonha disso, sabia?!


Sempre que falo sobre desapego com parentes e amigos, percebo que a ideia que se tem é a de que desapegar é ser indiferente. Então me diga, sofrer por apego seria o quê? Benevolência? Se viver pelos outros é benevolência, porque viver por você não pode ser considerado benevolência também? 

Por que o outro tem que ser mais importante para você do que você mesmo?


Viver amarrado em situações alheias e se enforcar pelos outros é nobre? Desde quando?


Primeiro que para praticar o desapego não precisa ser indiferente a ninguém. Ser indiferente (em essência) é coisa de psicopata e precisa ser tratado, ponto! 

 

Segundo, é como diz o ditado, ame ao próximo como a ti mesmo. Lembra-se? Agora me diga, sem amor-próprio é possível amar alguém, minha gente? Então como é possível você abrir mão de si para viver pelos outros e achar isso a coisa mais normal do mundo? Ao fazer isso, acaba-se por viver de modo inautêntico, passivo e infeliz.

Claro que existem os que são felizes se autoflagelando. Tudo bem! Mas se este não for o seu caso, aprenda de uma vez por todas, amor-próprio não significa desprezo alheio, indiferença ou algo parecido. Desapegar é apenas reconhecer que o seu bem-estar é tão importante quanto o de qualquer outro. Portanto, largue tudo, mas não largue você.


Convive-se, mas não se abre mão da própria vida em prol de outras. Ou você ainda acredita que Madre Tereza de Calcutá, por exemplo, abriu mão de sua vida a favor dos necessitados? Óbvio que não! Ela sabia que para fazer o bem era preciso estar de pé todos os dias. Suas ações não foram puramente altruístas, isso não existe! Ela se sentia feliz ao fazer o que acreditava. Fazer o bem lhe confortava a alma. A dela e a do próximo.

Ainda que se passe fome pelo outro, o ato em si tem significado próprio, traz algum conforto, algum prazer a quem faz.


Mas como o ideal só existe dentro da sua cabeça, encarar a realidade é preciso. Portanto, se nunca te disseram isso, pode deixar que eu repito. Altruísmo não existe!


Todas as nossas ações são a base de troca. É triste? Pode ser. Mas podemos pensar que também é justo. Tudo depende de como encaramos as coisas.


Talvez seja isso que nos torne tão reféns das paixões. Sempre esperamos algo em troca: um salário, um abraço, um sorriso, um reconhecimento, um grito pra conseguir acordar pra vida.


Não se iluda! Não há neutralidade em nada do que fazemos. A própria vida não é neutra, minha gente. Acorda!


Seja lá o que for, mesmo que seja a alma leve e uma boa noite de sono, sempre estamos a espera de algo bom ao final de nossas ações. Mas nem sempre isso vem dos outros, não é mesmo? E é justamente por isso que quanto maior for a sua distância de você mesmo, maior será o seu sofrimento.


Se eu caio nessas armadilhas? Claro que sim! Assim como você, eu também estou imersa na cultura ocidental. Muitas vezes me vejo diante de paixões e apegos. E é justamente por isso que aprendi a fechar portas. E você, assim como eu, percebendo que se não estiver bem, nada fluirá bem na sua vida, e que o apego só causa dor e sofrimento, também aprenderá fechar portas na velocidade da luz.

 

Por Andrea Paiva

contato@andreapaiva.com












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