Quinta-Feira, 11 de Agosto de 2022

Lucas Rodacoski

Lucas Rodacoski é professor universitário, formado em Gastronomia pela Universidade Anhembi Morumbi (2009), com extensão universitária em Jornalismo Gastronômico pelo Senac (2011) e pós-graduado em Gastronomia: História e Cultura, também pelo Senac (2013).

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Dois pesos uma medida



A palavra "salvar" ganhou um novo significado. Explico. A história seria bonita se não fosse polêmica (leia a notícia publicada pelo UOL clicando no link no final desse artigo). Um caranguejo guaiamu foi salvo pelo presidente de uma ONG de:
( ) exploradores de manguezais
( ) agressores de animais
( ) um cachorro raivoso
(x) população em situação de rua
Não, eles não estavam munidos de pau e pedra, mas de panela, fogo e fome. De fato nenhuma vida é menor do que outra, nem mesmo a de um caranguejo em relação a minha ou a sua, ou a nossa vida. Mas quem foi salvo de quem? Quem são as vítimas? Quem são os vilões? Aquelas pessoas, que tiveram seu almoço frustrado, tinham outro alimento para saciar a fome? Se não, lhes foi ofertado algo em troca?
Afinal, de que importa? basta para a mídia conservadora enaltecer a sobrevivência de um caranguejo das garras afiadas e dentes pontiagudos dos marginais que se abrigavam embaixo de uma ponte e, diante do ronco de seus estômagos, decidiram por sacrificar a vida do animal. "Em nome da fome", talvez teriam justificado os desamparados se alguém tivesse se importado em perguntar. 
O herói, um presidente de uma ONG. A vítima, um caranguejo. O vilão, um bando de desocupados na rua.
Tarcisão, como foi apelidado o crustáceo, foi levado a uma clínica para exame de corpo de delito. Nenhuma lesão foi encontrada. Alívio geral sob o viaduto do Corte do Cantagalo. Ninguém seria enquadrado.
Hoje Tarcisão vive feliz, juntos com outros de sua espécie, sob a tutela da ONG SOS Aves e Companhia, na Lagoa, região nobre da cidade do Rio de Janeiro. Tudo graças a um homem "de bem" que fez o "bem" sem olhar a quem. Parece que "bem" também tem um subjetivo significado.
Hoje, pessoas sem nome, ao contrário do gigante caranguejo, morrem de fome, sem a tutela do Estado, sob um viaduto, em Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro.
Respeito, cada um com suas ideologias contemplando animais ou não. Mas ainda me questiono: eles, as pessoas em situação de abandono, tinham outra opção de alimento? Eles não merecem um nome e cuidados/assistência tanto quanto Tarcisão mereceu e merece?
Como eu disse: nenhuma vida é menor do que outra.



Link da notícia: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/04/17/prestes-a-ir-para-a-panela-caranguejo-gigante-e-salvo-por-ativista-no-rio.htm












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